sábado, 20 de fevereiro de 2010

Futuros amantes - Conto

 
O mundo estava vivendo uma grave crise.Iraquianos atacavam a Venezuela de Chaves, querendo conquistar as reservas de democracia conseguida a duras penas. Franceses tristonhos e indignados com os brasileiros, invadiram o país tropical ao sul e levaram o carnaval. Tudo estava uma bagunça. Estados Unidos pregavam a    paz, implorando pela paz, mas ninguem os ouvia. Nem os Chineses.
Mas Marie e Fred não se importavam. Continuavam dançando e pedindo ao James, mais uma taça de champagne. Bela, esguia e charmosa, Marie flutuava ao vento, dançando ao som da musica que Fred sibilava em seu ouvido. Jovens, não sentiam a impotencia de permanecer sujeitos ao perigo, enquanto se divertiam naquele lugar, um campos de guerra turco.Seu empregado, pedia insistentemente para que fossem se esconder numa das milhares de residencias espalhadas pelo mundo, mas eles dois o ignoravam.Sabiam que o governo os encontraria mesmo e decidiram findar ali mesmo.James desistiu, sabia que seu fim era iminente junto com o de seus patrões. Sentou, fez sua prece particular, pedindo aos céus que se por ventura ele saisse ileso, ofertaria suas economias aos Haitianos. Segurou o guarda-sol desnecessário ao momento, e riu dos seus dois pupilos.
'What a wonderful world' - Era a canção que Fred tentava cantar enquanto ela ria de seu péssimo sotaque inglês.
-Você não consegue fazer melhor? - Perguntou ela entre um sorriso e outro.

Ele não se deu por vencido, e assobiou a melodia, metodicamente, fazendo com que Marie pulasse entre as poças d'agua, tentando dar ritmo ao que ele insinuava com a canção.Viviam o amor. Ignoravam o sistema mundial que entrara em crise, e somente dançavam ao som das batidas cardíacas que o sentimento proporcionava.Pensavam juntos, que se deveriam morrer, que fosse da forma mais feliz possivel. De longe, um leão observava, e acenava com a cabeça para uma gazela que também assistia aos dois alegremente. A gazela, dissera não ter visto nada igual em seus anos todos, e o leão concordava com primor. Riam de forma categórica e inspirada. James percebeu a conversa dos dois bichos, e decidiu se aproximar, já que seus amos não pareciam necessitar da presença dele. Subiu a pequena colina e cumprimentou os dois...

-Oi - Disse James
-Olá - Respondeu a gazela. O leão apenas o encarou.
-Err,vocês estão com medo?
-Estávamos - Respondeu a gazela.
-Não estamos mais. - Disse o leão.
-Hm, eu ainda estou. Fugimos do Brasil pois acabou o carnaval, e eles vieram se divertir aqui.
-Na Turquia?
-Sim...
-Lugar estranho para se curtir o carnaval. Estive uma vez no Brasil - Finalizou com um sorriso melancólico, o Leão.
-Lugar estranho também para se ver um leão.
-Não é mais nada estranho nesse mundo. Respondeu a gazela.
-Tá vendo aqueles dois lá embaixo? - Perguntou James

Eles rodopiavam enquanto Fred tentava solar  'What a wonderful world'. Marie ria docemente, esbanjando sua felicidade por dividir o mundo com aquele cujo coração pedia sempre mais, e mais. Ele, fascinado com a beleza de sua amada, apenas admirava e deixava que algumas lagrimas pudessem descer rosto abaixo, figurando seu amor.

-Sim - Disseram os bichos.
-São meus patrões.
-E o que é um 'patrões'? -Perguntou o Leão.
-É uma espécie de hierarquia entre os humanos - Respondeu a Gazela
-E como você sabe disso, se não sai do meu lado? - Perguntou o leão
-Ora, eu leio muito.
-Bem, eles são meus patrões, e decidiram viver intensamente até o ultimo minuto.
-E eles irão morrer? - Perguntou com um olhar soturno, a gazela
-Não sei. Provavelmente sim.
-Que triste! Eles parecem estar apaixonados.-Ainda triste, disse a gazela.
-Sim, estão. Se casaram ontem, num Pub em plena Av. Epitácio Pessoa.
-No rio de janeiro? - Perguntou o leão.
-Não, na Paraiba.
-Eu conheço a Paraiba - Disse a gazela.
-É um belo lugar, mas, como você foi parar lá? -Perguntou o James.
-Uma vez, namorei um cara de lá, e viajei para conhecer a familia dele. Mas não deu muito certo.
-Disso você não tinha me contado nada! - Respondeu o leão à gazela.
-Você não precisa saber de tudo...Mas diga-me James, por que irão morrer?
-Porque os franceses decidiram acabar com os brasileiros felizes.
-Que chato! - Disse a gazela.

De repente, Marie sente sede, e busca por James que ao longe, somente observa seus patrões.Ela torna a procurá-lo com os olhos, mas não o encontra. Ele percebe a ansiedade de sua ama, e se despede dos bichos...

-Devo ir! Eles precisam de mim...
-Boa sorte! -Disseram eles.
-Obrigada dona gazela - Respondeu James...

E desceu a pequena colina, em direção aos dois apaixonados...
A gazela, retrucou as ultimas falas de seu novo amigo:

-Tão bonito, mas tão burro.
-Por que burro? - Perguntou o Leão.
-Porque não é 'obrigada', e sim, 'obrigado'. Ele é homem e deve responder de acordo com seu gênero.
-Você sabe demais...-Disse o leão.

Marie lançou um olhar contente por ver seu sudito novamente em sua companhia.Prontamente arguiu o rapaz sobre sua breve ausencia...

-Por onde foi? Não se afaste muito! Não teremos como te proteger assim, caso precise!

[Como se ali, houvesse alguma proteção]
-Desculpe, estava fazendo amizade com os nativos.
-Tudo bem! Quero uma taça de vinho, agora!
-Sim, mademoiselle...

Ela lançou um beijo ao ar...e voltou correndo com sua echarpe ao vento.Pulou nos braços de Fred, que retribuiu com um longo abraço. Por um segundo, James conseguiu esquecer toda a hostilidade do lugar, e sentiu inveja por terminar a vida sem a mesma empolgação de seus amos.

De repente, surgiu ao céu, um avião kamikaze. Esse fazia acrobacias e lançava tiros ao ar enquanto eles dançavam... A gazela, que a tudo assistia, temeu o pior, e decidiu não mais olhar. Chamou o leão e foram embora. James, ao perceber, se sentiu imune e se resignou, ao fim. Jogou a taça de vinho ao chão, por tremer demais.Fred olhou para Marie, e a beijou. Ela, o puxou pela cintura, sentindo o corpo forte e quente daquele que amava, e retribuiu o beijo. James chorou baixinho, e pediu aos escafandristas ao longe, que o dessem uma porção de Césio 137 para antecipar sua morte.Partiu. Marie e Fred nem notaram.

-Eu amo você - Disse ela
-Eu também te amo!
-Acho que é hora de dar adeus!
-Será?
-É, os aviões nos acharam.
-Por que será que tem que ser assim?
-Não sei, mas se tem de ser, que seja assim...
-Vou te amar pra sempre...
-Eu também...
-Quando chegar lá em cima, me procura?
-Não farei outra coisa senão isso...
-Será que Deus vai deixar que namoremos lá?
-Não sei, mas daremos um jeito...

Se beijaram novamente, num frenesi incomum aos amantes.Ela o abraçava forte, num misto de medo e desejo. O primeiro tiro, veio nas costas de Fred, e ele sentiu as pernas fraquejarem. Ela pressentiu o pior, e se jogou em cima dele. Foi iminente. O segundo tiro foi em cheio, sob seu peito, parando o coração. A partir dali, foram em busca do que é eterno: as marcas do alto. Foram em busca do unico propósito de nossas vidas: o encontro com a eternidade. O Pai os aguardava. 
As cortinas se fecharam e era uma vez, um casal apaixonado e inspirado.

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